“Um homem precisa viajar. Por sua conta, não por meio de histórias, imagens, livros ou TV. Precisa viajar por si, com seus olhos e pés, para entender o que é seu. Para um dia plantar as suas próprias árvores e dar-lhes valor. Conhecer o frio para desfrutar o calor. E o oposto. Sentir a distância e o desabrigo para estar bem sob o próprio teto. Um homem precisa viajar para lugares que não conhece para quebrar essa arrogância que nos faz ver o mundo como o imaginamos, e não simplesmente como é ou pode ser. Que nos faz professores e doutores do que não vimos, quando deveríamos ser alunos, e simplesmente ir ver.”

Amyr Klink

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24 novembro, 2010

Aprendendo das Cozinheiras - Rubens Alves

A se acreditar em entendidos em coisas de outros mundos, já devo ter sido cozinheiro em alguma vida passada. É que tenho um fascínio enorme pelas panelas, pelo fogo, pelos temperos e por toda a bruxaria que acontece nas cozinhas, para a produção das coisas que são boas para o corpo. Não é só uma questão de sobrevivência. Os cozinheiros dos meus sonhos não se parecem com especialistas em dietética.

Interessa-me mais o prazer que aparece no rosto curioso e sorridente de alguém que tira a tampa da panela, para ver o que está lá dentro. Minhas cozinhas, em minhas fantasias, nada têm a ver com estas de hoje, modernas, madeiras sem a memória dos cortes passados e das coisas que se derramaram, tudo movido a botão, forno de micro-ondas, adeus aos jogos eróticos preliminares de espiar, cheirar, beliscar, provar, perfurar... Tudo rápido, tudo prático, tudo funcional. Imaginei que quem assim trata a cozinha, no amor deve ser semelhante aos galos e galinhas, quanto mais depressa melhor, há coisas mais importantes a se fazer. Como aquele vendedor de pílulas contra a sede, da estória do "Pequeno Príncipe". Ir até o filtro é uma perda de tempo. Com a pílula elimina-se a perda inútil. “E que é que eu faço com o tempo que eu perco?" — perguntou o Principezinho.

"...Você faz o que quiser", respondeu o vendedor." — Que bom! Então, é isto o que vou fazer, ir bem devagarzinho, mãos nos bolsos, até a fonte, beber água..."

Quero voltar à cozinha lenta, erótica, lugar onde a química está mais próxima da vida e do prazer, cozinha velha, quem sabe com alguns picumãs pendurados no teto, testemunhos de que até mesmo as aranhas se sentem bem ali.

Nada melhor que o contraste. A sala de visitas, por exemplo. Lá no interior de Minas, faz tempo. Retrato silencioso oval do avô, na parede; samambaia no cachepô de madeira envernizada; porta-bibelôs; as cadeiras, encostos verticais, 90 graus, para que ninguém se acomodasse; capas brancas engomadas pra que nenhuma cabeça brilhantinosa se encostasse; os donos dizendo em silêncio "está mesmo na hora", enquanto a boca mente dizendo "ainda é cedo", na hora da partida, junto com as recomendações á tia Sinhá (porque toda família tinha de ter uma tia Sinhá). Aí a porta se fechava, e a vida recomeçava, na cozinha...

A porta da rua ficava aberta. Era só ir entrando. Se não encontrasse ninguém não tinha importância, porque em cima do fogão estava a cafeteira de folha, sempre quente, para quem quisesse. Tomava-se o café e ia-se embora, havendo recebido 0 reconforto daquela cozinha vazia e acolhedora. Eu diria que a cozinha é o útero da casa: lugar onde a vida cresce e o prazer acontece, quente... Tudo provoca o corpo e sentidos adormecidos acordam. São os cheiros de fumaça, da gordura queimada, do pão de queijo que cresce no forno, dos temperos que transubstanciam os gostos, profundos dentro do nariz e do cérebro, até o lugar onde mora a alma. Os gostos sem fim, nunca iguais, presentes na ponta da colher para a prova, enquanto 0 ouvido se deixa embalar pelo ruído crespo da fritura e os olhos aprendem a escultura dos gostos e dos odores nas cores que sugerem o prazer...

Cozinha: ali se aprende a vida. É como uma escola em que o corpo, obrigado a comer para sobreviver, acaba por descobrir que o prazer vem de contrabando. A pura utilidade alimentar, coisa boa para a saúde, pela magia da culinária, se torna arte, brinquedo, fruição, alegria. Cozinha, lugar dos risos...

Pensei então se não haveria algo que os professores pudessem aprender com os cozinheiros: que a cozinha fosse a antecâmara da sala de aulas, e que os professores tivessem sido antes, pelo menos nas fantasias e nos desejos, mestres-cucas, especialistas, nas pequenas coisas que fazem o corpo sorrir de antecipação. Isto. Uma Filosofia Culinária da Educação. Imaginei que os professores, acostumados a homens ilustres, sem cheiro de cebola na mão, haveriam de se ofender, pensando que isto não passa de uma gozação minha.

Logo me tranqüilizei, ouvindo a sabedoria de Ludwig Feuerbach, a quem até mesmo Marx prestou atenção: "O homem é aquilo que ele come". Abaixo Descartes. Idéias claras e distintas podem ser boas para o pensamento. Também bombas atômicas e as contas do FMI são boas para serem pensadas. Só que não podem ser amadas, não têm gosto e nem cheiro, e por isto mesmo a boca não as saboreia e não entram em nossa carne.

Imitar os que preparam as coisas boas e ensinam os sabores...

A primeira lição é que não há palavra que possa ensinar o gosto do feijão ou o cheiro do coentro. É preciso provar, cheirar, só um pouquinho, e ficar ali, atento, para que o corpo escute a fala silenciosa do gosto e do cheiro. Explicar o gosto, enunciar o cheiro; pra estas coisas a Ciência de nada vale; é preciso sapiência, ciência saborosa, para se caminhar na cozinha, este lugar de saber-sabor. Cozinheiro: bruxo, sedutor. "— Vamos, prove, veja como está bom..." Palavras que não transmitem saber, mas atentam para um sabor. O que importa está para além da palavra. É indizível. Como ele seria tolo se avaliasse seus alunos por meio de testes de múltipla escolha. É assim com a vida inteira, que não pode ser dita, mas apenas sugerida. Lembro-me do mestre Barthes, a quem amo sem ter conhecido, que compreendia que tudo começa nesta relação amorosa, ligeiramente erótica, entre mestre e aprendiz, e que só aí que se pode saborear, como numa refeição eucarística, os pratos que o mestre preparou com a sua própria carne...

A lição dois é que o prazer do gosto e do cheiro não convivem com a barriga cheia. O prazer cresce em meio às pequenas abstenções, às provas que só tocam a língua... É aí que o corpo vai se descobrindo como entidade maravilhosamente polimórfica na sua infindável capacidade para sentir prazeres não pensados. Já os estômagos estufados põem fim ao prazer, pedem os digestivos, o sono e a obesidade. Cozinheiros de tropa nada sabem sobre o prazer. A comida se produz às dezenas de quilos. Pouco importa que os corpos sorriam. Comida combustível. Que os corpos continuem a marchar. Melhor se fossem pílulas. Abolição da cozinha, abolição do prazer: pura utilidade, zero de fruição.

"— Estava boa a comida?"

"— Ótima. Comi um quilo e duzentas gramas..."

Equação desejável, pela redução do prazer à quantidade de gramas. Não deixa de ser uma Filosofia... Como aquela que desemboca nos cursinhos vestibulares e já se anuncia desde a primeira série do primeiro grau. Não se trata da erotização do corpo. Para a engorda tais sensibilidades são dispensáveis. Artifício na criação de gansos, para a obtenção de fígados maiores: funis goelas abaixo e por ali a comida sem gosto. Afinal, por que razão o prazer de um ganso seria importante? Seus donos sabem o que é melhor para eles... Vi nossos moços assim, funis goela abaixo, e depois vomitando e pensando o seu vômito. A isto se chama ver quantos pontos se fez no vestibular...

Entendem por que eu queria uma filosofia culinária de educação? É que temos tornado os criadores de ganso como modelos...

Texto extraído do livro “Estórias de quem gosta de ensinar – O fim dos vestibulares”, Ars Poética – São Paulo, 1995, pág. 133.

19 novembro, 2010

"Sou o que quero ser, porque possuo apenas uma vida e nela só tenho uma chance de fazer o que quero. Tenho felicidade o bastante para fazê-la doce, dificuldades para fazê-la forte, tristeza para fazê-la humana e esperança suficiente para fazê-la feliz. As pessoas mais felizes não tem as melhores coisas, elas sabem fazer o melhor das oportunidades que aparecem em seus caminhos." Clarice Lispector

15 setembro, 2010

O Regulamento do Chef

Gente, olha que mimo... o regulamento do Chef!
Está pendurado na parede do restaurante em que estou trabalhando.


O Regulamento do Chef
Artigo I - O Chef tem razão.
Artigo II - O Chef tem sempre razão.
Artigo III - Mesmo se um subalterno tem razão, é o artigo I que se aplica.
Artigo IV - O Chef não come, ele se alimenta.
Artigo V - O Chef não bebe, ele degusta.
Artigo VI - O Chef não dorme, ele se repousa.
Artigo VII - O Chef nunca está atrasado, ele foi retido.
Artigo VIII - O Chef nunca deixa seu serviço, ele é chamado.
Artigo IX - O Chef não mantém relações com a secretária, ele a educa.
Artigo X - O Chef nunca lê o seu jornal durante o serviço, ele estuda.
Artigo XI - (i) Entra-se no escritório do Chef com as idéias pessoais, sai-se com as idéias do Chef.
Artigo XII - O Chef é o Chef, mesmo em calção de banho.
Artigo XIII - Quanto mais se critica o chef, menos ganha-se bonificação.
Artigo XIV - O Chef é obrigado a pensar pelos outros.

Conclusão
O Chef é um ditador. É necessário impedir que os Chefs se casem a fim de evitar que seu número aumente.

(i) Se as idéias do subalterno são boas, então não são mais suas, mas as do Chef.

07 fevereiro, 2010

Importância dos taxistas para o turismo e os restaurantes

Hoje estava pensando sobre as viagens que já fiz, nos restaurantes que já fui em cidades do Brasil e de outros países e, não sei por que, me vieram à cabeça os taxistas. Como eles são fundamentais para o turismo das cidades e, na minha área, para os restaurantes. Eu não sou muito de fazer programa de turista. Uma prova disso é o fato de que eu gosto de morar nas cidades para realmente poder conhecer a cultura, costumes e me misturar com o povo dali. Isso me fascina! Então quando quero comer ou ir à algum lugar sempre pergunto para pessoas na rua, garçons e taxistas. Mas normalmente com taxistas eu tento ter uma conversa mais comprida e dependendo eu aceito ou não a sugestão. Recepção de hotel nem pensar.

Como os taxistas são importantes! A receptividade, o papo da maioria (ficamos por dentro do que está acontecendo), recomendações do que fazer, do que comer, de onde ir... Entretanto, alguns agem de má fé aproveitando-se da ignorância dos turistas e do momento, onde tudo parece ser “lindo”, e conseguem persuadi-los e levá-los aos restaurantes e outros lugares mais convenientes.

Não se espantem se souberem de "parcerias" de hotéis e taxistas para levar os clientes aos restaurantes. A grande maioria dos turistas aceita as recomendações sem pesquisar mais a fundo se são boas ou não. E isso é perigoso dependendo da filosofia do restaurante. Algumas cidades são tão abarrotadas de turistas (devo especificar aqui turismo à laser, pois existem diversas finalidades de turismo) do mundo inteiro e que normalmente visitarão a cidade uma única vez. Esse público em particular não tem memória, não irão voltar ao restaurante, não irão indicar o restaurante e se passarem mal com a comida não saberão quem foi o responsável porque comem na rua o tempo todo. Resultado: entre vários riscos, o de uma infecção intestinal ou de uma decepção com o restaurante.

Definitivamente, o taxista é uma peça crucial! Chega a ser o responsável, quando bem instruído e bem intencionado, por um retorno dos turistas à cidade e, mais além, à aquele restaurante em especial.

Vai aqui então um apelo, de uma turista e profissional da restauração, aos taxistas do mundo todo: que se mantenham informados, bem intencionados e orgulhosos com a profissão que exercem!

17 agosto, 2009

Momento de reflexão

Hoje não foi um dia muito bom. É meu dia de folga aqui em São Paulo, acordei lá pelas 11 da manhã com uma barulheira, qual não foi a minha surpresa estavam quebrando o banheiro perto do meu quarto. Foi o dia todo assim. Ainda fiquei um tempo no meu quarto, entrei na internet, aliás meu lazer aqui em SP tem sido a internet, tenho falado com pessoas que há um tempão não falava. Resolvi descer lá na cozinha para pegar um iogurte. Não sei se já mencionei mas moro numa casa enorme onde o quarto é meu, trancado a chave e o resto é de uso comum. Descobri então que pela segunda vez haviam roubado iogurte da minha sacolinha. Isso me deixa tão, mas tão, irritada. Fiquei de mau humor o resto do dia todo. Que droga!!!
Comecei a pensar... aliás, tenho pensado nisso direto. Eu não tenho agilidade necessária para trabalhar na cozinha. Será uma questão de tempo? Ou será uma coisa minha irreparável? Não penso nisso como uma coisa ruim ou boa. Claro, se eu tivesse a agilidade eu nem estaria pensando nisso. Mas qual será o meu lugar na cozinha? Qual o meu papel?
Uma amiga minha, formou comigo no Senac, me disse que:
"Cozinheira tem que ser ágil no fazer,
chef tem que ser ágil no pensar."
Concordo com ela, mas acho que chef também tem que ser ágil no fazer. Aliás, nenhum chef deixa de ser cozinheiro.
Mas o que me deu mais força foi que ela disse que:
Você AMA, você CONSEGUE!!!

Gaby, valeu!!!
Estou morrendo de saudade de você e da turma toda.
Sucesso na sua loja! Esperamos que você se recupere logo e possa voltar para dentro da cozinha novamente, que é o seu lugar.
Muitos beijos para você.

27 abril, 2009

Primeira postagem

Olá,
esta é a minha postagem inicial e espero que seja a primeira de muitas.
Pretendo fazer deste blog muitas coisas, mas principalmente um meio de divulgação dos meus trabalhos e da trajetória da minha carreira. Postarei aqui notícias, fotos, dicas, receitas e informações a respeito de gastronomia.
Para os que não me conhecem eu sou formada em adiministração, fiz o curso de cozinheiro no Senac/BH, fiz e tenho feito diversos cursos de chocolateria, estou estagiando em um dos melhores restaurantes italianos em Belo Horizonte, além de fazer cursos com chefs renomados de culinária italiana e francesa.
Em paralelo com o estágio, tenho feito chocolates para fora junto com a minha mãe, Vânia Campos (http://www.vaniacampos.com.br/). Arrebentamos nessa Páscoa 2009 com dois Show Rooms e agora estamos bombando na Minas Tchê, feira do Rio Grande do Sul em Belo Horizonte, que começou dia 24 de abril e vai até dia 03 de maio.